Como diferenciar dor mecânica, neuropática e inflamatória?

O paciente com dor certamente é um dos motivos de consulta mais desafiadores para o médico. Somente dor mecânica crônica lombar baixa pode acometer 23% da população mundial. Portanto, para estabelecer com clareza o tipo de dor que o paciente apresenta, é importante pôr em prática as recomendações a seguir.

  1. Avaliar as características da dor.
  2. Avaliar a resposta às terapias analgésicas anteriores e atuais.
  3. Registrar a gravidade da dor e do comprometimento funcional com uma escala simples para uso repetido.
  4. Avaliar o estado psicológico do paciente.
  5. Descartar os principais sinais de alarme: anestesia, perda de controle esfincteriano, perda motora, persistência da dor (quinto sinal vital), contusões ou abrasões locais, febre, fraqueza localizada ou regional à dor.
  6. Registrar o cenário em que ocorrem as dores do paciente porque, frequentemente, é ele que indicará se teremos de acessar dores de etiologia mecânica, inflamatória, neuropática ou combinadas.
Principais características de cada tipo de dor
  Dores mecânicas Dores inflamatórias Dores neuropáticas
Desencadeante Ações rotineiras e repetidas Repouso, descompensação da doença de base Descompensação da doença de base e lesão compressiva
Fatores de alívio Repouso, calor local Calor local Sem fator identificado
Sintomas associados Contratura muscular (pontos de gatilho) Edema, calor, rubor, rigidez Queimação, anestesia, alodinia
Hipóteses diagnósticas Osteoartrite, lombalgia mecânica Artrite reumatoide, espondiloartropatias Neuropatia diabética, ciatalgia compressiva
Tratamentos Aguda: AINE*, ciclobenzaprina e dipirona   Crônica: pregabalina, duloxetina, baclofeno, amitriptilina Aguda: AINE, corticoide   Tratamento específico da doença (DMARDs**, imunobiológicos) Gabapentina, amitriptilina  
Tratamento específico da doença de base

*AINE – anti-inflamatório não esteroide; **DMARDs – drogas modificadoras da atividade da doença.

A síndrome miofascial deve ser tratada de forma separada nesta classificação, porque divide o mecanismo da dor neuropática. Os fatores desencadeantes podem ser mecânicos, esforços repetitivos ou psicológicos, como o estresse. Portanto, há uma via mecânica. Mas também há evidências da via neurológica (estresse gerando desregulação/amplificação do sinal de dor para o cérebro) envolvidas no mecanismo da dor. O tratamento também associa medicamentos e medidas não farmacológicas utilizadas tanto nas dores mecânicas como nas neuropáticas.

Referências
  • Rosenquist EWK, Aronson MD, Crowley M. Evaluation of chronic pain in adults [Internet]. Waltham (MA): UpToDate Inc.;2019 [atualizado em 2018 out].
  • Galicia-Castillo MC, Weiner DK. Treatment of persistent pain in older adults. Waltham (MA): UpToDate Inc.;2019 [atualizado em 2018 jul].
  • Hauk L. Management of chronic pain and opioid misuse: a position paper from the AAFP. Am Fam Physician. 2017 Apr 1;95(7):458-459.
  • Jafri MS. Mechanisms of Myofascial Pain. Int Sch Res Notices. 2014;2014. pii: 523924.